O reencontro

Ela estava em mais uma daquelas noites em que sai sozinha para pensar. Nina age assim quando se sente triste, contrariada ou puta da vida com alguma coisa. Pega uma roupa bacana, se produz e sai. Nesta noite não foi diferente.
Andou pelo centro da cidade até encontrar um lugar sossegado. E encontrou. Pediu uma taça de vinho, colocou algumas músicas na jukebox, saiu algumas vezes para fumar e, como de costume, começou a se entediar.
Algumas pessoas tentavam se aproximar para conversar e conhecê-la, mas ela dava cada fora…afinal de contas, havia saído para relaxar e pensar sozinha.
Após algumas taças, ela já estava mais tranqüila e começou a dançar ao som de um hipnotizante Jazz, sem reparar que alguém em especial a observava.
Decidiu se sentar novamente, só que dessa vez sob o balcão e, girando sua taça, repensava algumas decisões ruins que tomara no passado. Imaginando como seria se tivesse agido diferente, se tivesse dito o que realmente gostaria.
De que adiantaria ficar pensando neste monte de “se”. Ela perdia tanto tempo pensando nisso que, não percebia o “resto do mundo” ao seu redor.
E entre uma golada e outra, foi surpreendida por uma voz que não ouvia há tempos. Surpresa! Era justamente a pessoa que tomava tanto espaço em seus pensamentos sobre o passado. Justamente a pessoa de quem se afastou por querer dar um basta em suas indecisões. Ela se virou em direção daquela voz e,  ele deu-lhe um beijo no rosto e a abraçou. Então deram início a um diálogo conflitante:

– E aí Nina? Já tem quantos filhos?

E ela pensou: Porra! Que grosseria!…Mas, educadamente, respondeu:

-Nenhum. E você?

Ele responde:

-Tenho duas filhas. Como você sabe. Afinal, você as conheceu.

Ela pensa:  Se deixar é capaz de fazer um monte de filhos feito um coelho! Mas responde já alfinetando:

– É verdade…por um momento havia esquecido que você se casou e se tornou pai em pouco tempo. Quase não curtiu a vida a dois, né?

Ele fez uma pequena pausa e retrucou:

– Quando casei, ela já estava grávida, e você me deixou por isso. Eu menti pra você, te traí, ela engravidou e eu me fodi. Tá lembrada agora? Já podemos mudar o rumo dessa conversa, ou você vai querer jogar algo mais na minha cara?

Ela deu uma risadinha interna, olhou bem nos olhos dele e disparou:

– Vou querer jogar sim! Afinal, foi você que se colocou nessa situação. Não consegue manter a cabeça sem cérebro dentro da calça e fica lamentando. Ah! Faça-me um favor… me esquece!!! Ou melhor, não esquece não, e se arrependa a cada dia !!!

Pronto! Nina já não precisava mais imaginar como seria se tivesse dito o que gostaria. Ela finalmente disse. Mas, percebeu quanto tempo havia perdido guardando esta mágoa.
Ele sentou em outro lugar e ficou pensando em desistir de conversar com ela novamente. Nina  ficou observando de longe e, lembrando dos momentos bons que tiveram no passado,decidiu então falar com ele. Dessa vez, sem brigas.

– Pra que você veio? Foi apenas um acaso?

Ele respondeu sinceramente:

-Não. Eu sabia que lhe encontraria aqui. Vim pra te ver, sinto sua falta. É que não fiz a pergunta correta quando me aproximei. Na realidade, quero saber como você está. Se já tem alguém, se ainda pensa em mim…

Nina prestou atenção no que dizia. Percebeu que ele não é feliz e que estava querendo consertar seus erros. Mas, ela foi esperta o suficiente para também perceber que ele iria cometer um novo erro se ela deixasse acontecer. Logo respondeu:

-Estou bem sim. E não tenho ninguém.

– E você ainda pensa em mim? – Ele perguntou.

Nina, de forma categórica, disse:

– Não da forma que você gostaria.

E após um breve silêncio, ela continuou:

– Já não dou a mesma importância que dava antigamente, já não sou obcecada com a idéia que tinha de voltarmos. Já passou. O que ficou, confesso , foi uma confusão de sentimentos que nesse exato momento está começando a ser solucionado. Agora estou percebendo que posso e devo continuar sem você e que foi bom enquanto durou, e enquanto você não aprontou. Eu lamento a forma como terminou, mas foi bom ou, você me enganaria por muito mais tempo.
Eu sinto sua falta em alguns momentos, mas não bagunçaria minha vida novamente lhe procurando para suprir isso.

Ele ouviu cada palavra atentamente e pareceu um pouco triste mas, entendeu. Eles então resolveram prestar atenção nas músicas que estavam rolando. E de repente, era como se nada tivesse acontecido, como se fossem dois grandes amigos bebendo, fumando e dando risada de histórias do dia a dia. E ele então disse:

– Eu me separei dela e agora moro em outro bairro. Por isso estou aqui. Por isso te procurei… Sinto sua falta e agora percebo que não é justo te atrapalhar, bagunçar sua vida depois de tanto tempo. Afinal se passaram cinco anos… e,  eu pensava em você quase todos os dias. Imaginando como teria sido se eu agisse diferente, se eu não tivesse te magoado tanto.

Nina percebeu que os anos se passaram iguais para ambos. Mas aquilo não era o suficiente para ela, afinal, já não havia confiança nenhuma para fazê-la voltar atrás. Era claro para ela que levar a outro patamar não seria bom pra nenhum dos dois. E estranhamente ela pensava no que a ex dele estaria passando com as filhas. Ela definitivamente não queria fazer parte daquilo. Então disse:

-Acho melhor eu ir embora… Está ficando muito tarde.

Ele rapidamente perguntou:

-Posso te levar?

Como ela não gostaria que ele soubesse seu novo endereço, respondeu que não. Ele então decidiu sair do bar antes e, a pegando de surpresa, deu-lhe um beijo no canto dos lábios.
Aquilo quase a desmanchou mas, ela ficou firme, ou melhor, estática. Nem olhava para trás. Foi quando ele buzinou e a chamou até o carro.

– Me passe o número de seu telefone para que possamos conversar num outro momento.

Ela passou, sabia que ele não a deixaria em paz e insistiria naquilo. E ao se despedir novamente, desta vez, se permitiu receber um beijo leve em seus lábios. Afinal, aquele seria, de fato, o último.
Nina passou um número que não existe e viu, aquela pessoa que lhe foi muito importante, ir embora com todos os sentimentos que a perturbava. Ficando apenas aquela imagem final, aquele beijo e uma certeza…
Não devemos nos precipitar em uma decisão ou cometer um erro quando sabemos que alguém irá se machucar. Pois ao tentar voltar atrás, mesmo com a certeza do amor, a falta da confiança o impedirá de seguir adiante. E por conta disso, você se verá obrigado a sacrificar seus sentimentos. Por mais puros que eles possam ser.

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