Nem sempre é “só um cachorro”

Ontem ao sair para trabalhar, me deparei com um cachorro morto próximo ao ponto de ônibus. E para minha tristeza era um cachorro que sempre ficava ao meu lado até o ônibus chegar. O avistei de longe e percebi que era ele. Chorei e tive receio de que outros carros o atropelassem ainda mais. E, de acordo com uma senhora que estava lá há mais tempo aguardando, foi um ônibus que o atingiu em cheio. Em seguida chegou um rapaz e ficou olhando, então, comentei que deveríamos tirá-lo de lá. Logo ele disse: “Eu não…tenho nojo!!! É só um cachorro de rua”. Fiquei pasma com a resposta mas, tentei entender. Afinal, cada um cada um… Eu gostaria de tirá-lo de lá, mas ele era muito grande e pesado, sozinha não conseguiria. Foi quando a lotação chegou e eu embarquei. Liguei para alguém em especial e pedi que ele tentasse tirar o bichinho de lá e, este prontamente, disse que tiraria. Que coração bom…eram cinco horas da manhã.
O tal rapaz que sentia nojo estava prestando atenção na minha conversa ao telefone e resmungou: ” Tudo isso por causa de um cachorro nojento !”. E eu perguntei: ” O que você disse?”, e ele respondeu que não havia dito nada.
A três pontos dalí deu-se início a um diálogo entre o motorista da van e a fiscal da linha que ficava naquele posto:
” Daiane, tem um cachorro atropelado lá no ponto da banca e eu acho que é o seu…” A garota parecia não acreditar e pediu para o motorista o descrever e, ele o fez. Para tristeza da moça, o cachorro era o dela.
Ela começou a chorar e o motorista dizia pra não ficar assim. Então, ela respondeu: ” Todos os dias saio ás quatro da madrugada para trabalhar e ele sempre me acompanha até aqui, depois sai e vai pro ponto da banca, mas sempre volta. Dessa vez ele não virá mais. Com ele do meu lado eu não tinha medo de ficar aqui. E agora?” . O rapaz que sentia nojo, esticou o pescoço por reconhecer a voz da moça. E ela o cumprimentou e perguntou: ” Beto, você viu meu cachorro lá?” e ele respondeu: “Vi sim”. Ela continuou: ” Você tirou ele de lá para não piorar?” e ele respondeu: ” Eu queria mas, não tinha ninguém pra ajudar…”.
Naquele momento, meu sangue ferveu e esbravejei: ” Mentiroso!!! Pedi sua ajuda e você disse que sentia nojo!!!” Precisei ligar pra outra pessoa e pedir que tirasse o cachorro de lá. Ele ficava comigo todos os dias  até o ônibus chegar. Como você tem coragem de mentir assim pra moça?”.
Ele, em um misto de vergonha e raiva da situação, ficou sem argumentos. E uma senhora ao meu lado disse que a moça fiscal era irmã dele. Confesso que por uma fração de segundos senti vergonha por ter dito o que disse, mas já havia despejado. A moça olhou pra ele muito decepcionada e disse que iria até lá retirar o corpo do bichinho.
Durante o resto da viagem, a mesma senhora que me disse que ele era irmão daquela  moça, falou ao rapaz: ” Você tem um coração muito duro e sempre foi assim. Desde criança. Coitada da sua irmã, foi ela quem te criou. E é assim que você retribui.”.
Chegamos ao terminal do metrô e este rapaz me chamou. Não quis parar. Fiquei com um pouco de receio com o que ele poderia falar mas, ele insistiu. Me pediu desculpas por não querer me ajudar quando eu pedi. Eu disse a ele que o arrependimento só veio pelo fato de descobrir que o cachorro era de sua irmã. Mas, ele falou que não, o motivo do arrependimento foi aquela senhora falar o que ninguém nunca havia falado. Falei que ele deve se desculpar é com a irmã, afinal, ela estava sofrendo muito mais.
Ele pensou um pouco e voltou para a van para ficar com ela. Porém, quando embarquei no trem, recebi a ligação da pessoa pra quem havia pedido ajuda e ele me disse que já o haviam tirado. Passei o resto do dia pensando na situação.
Eu sofri, pedi ajuda, a ajuda foi negada, o outro pedido de ajuda  foi aceito, outra pessoa precisou sofrer para aquele que negou grosseiramente acordar da merda que fez.
O desenrolar dessa história, eu não sei. Mas sinto que esse rapaz, antes de negar ajuda pra outro alguém, se colocará na situação da pessoa e pensará bastante antes de responder.

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